terça-feira, 30 de outubro de 2012







O meu cérebro adora impulsos que o rotinem. Já se rotinou para  olhar à volta nos meus passeios matinais.

....continuo observando, tentando desvendar os seres que se ocultam por baixo de cada mascara. 
Duas mulheres, já quase inseridas na nova rotina matinal, ainda não largaram a roupa de todos os dias mas, os pés, calçados de ténis já reflectem alguma mudança. E lá vão, marchando, bolsa a tiracolo, conversando. 
Mais quatro mulheres que aderiram à marcha. Falam muito alto, sentem dificuldade em ouvir-se e num crescendo falam a gritar. Diz uma aos gritos...eu fui obrigada a casar-me, senão a minha irmã não se podia casar.... (??). E lá vão gritando as suas experiências que são sempre as piores, as que mais doem...as mais gritáveis. 
Seguem ao seu ritmo, bolsas a tiracolo e marchando.
Ah! este homem vem encoberto. Ele está a andar, há já três voltas que me cruzo com ele  mas, não está vestido para fazer exercício. Veste camisa, calça vincada e sapatos de pele. Não quer que se saiba que aderiu à marcha. E, lá vai, marchando, bolsa presa ao pulso, escondida na mão. 
Mais um casal de idosos, ele trôpego, ela  segurando-lhe o braço, e garantindo-lhe a continuidade  do apoio de toda uma vida. Devagar, muito devagar, mala a tiracolo e o peso do companheiro no outro lado do corpo. 
Uma jovem, marcha depressa, faz aquecimento, começa a correr e lá vai. Equipada a rigor mas não leva bolsa a tiracolo. 
Um grupo de homens e mulheres, idosos de camisola branca, igual, preparam-se para fazer exercício em conjunto. Bolsas ao pescoço ou a tiracolo. 
Mais uma idosa, marchando lentamente. Não leva a bolsa a tiracolo, leva um saquinho de papel, que segura como se dentro dele fosse toda a sua vida.

Só então percebi. Aquelas bolsas são eles. São os cartões com os números que os identificam perante esta sociedade de números. 
Não vá acontecer que morram na marcha e ninguém conheça os seus números. Não fizeram nada na vida a não ser, serem um dente, de uma qualquer roda dentada, nas rodas do sistema. 
Sentem-se anónimos, sentem-se números. Tantas histórias escondidas por trás daqueles números. 
Aquelas bolsas, são  espadas embainhadas para defender as suas identidades numéricas.  

Muitos se conhecem, as historias de vida devem ter-se cruzado. Ninguém morre incógnito naquela marcha...será que pensam, que os números atestam a sua legalidade e como tal o direito a morrer..

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