quarta-feira, 7 de novembro de 2012




Dizia a minha amiga do coração Maria Izabel Viegas, sobre o Mistério

(...)O Mistério nos permite mergulhos, oscilações,(...)
E fez-me mergulhar no espaço momento em que os meus olhos se fixam no toque do pincel.
Solto e observo alucinadamente o movimento autónomo da multidão unida das cerdas .
Alheio-me do que me rodeia, mas oiço o que se passa.São vozes intromissoras, com frases sem sentido, só para me lembrarem que lhes pertenço e não sou senhora do pincel que se movimenta dançando à frente dos meus olhos.
E depois é o mistério, do mergulho, do avanço, da expectativa do traço que voou, para quê, porquê. Foi deslize meu ou rebeldia do pincel.
Mistério é o tempo parar no momento em que esta dança começa.
Mistério é deixar de sentir o meu corpo.
Mistério é esta explosão de mim no todo e deixar de ser eu, como penso que sou.
Mistério é, se o momento é agora ou se o agora é só uma suave compensação pelo que podia ter sido e não foi.
Mistério é não saber.
Mistério é não saber donde vem esta paz que me faz deixar ir, fluir, sem expectativas.
Mistério é não me conhecer e não me importar.
Quando deixo de me importar o Mistério acaba.
Tudo É.

Ana Lúcia Sobral

quarta-feira, 31 de outubro de 2012




Reli a nossa história para te encontrar. 
Embora a tua energia tivesse continuado por perto, cheguei à conclusão que te perdi de vista, na fúria de tecer a minha história.
Estou a tecê-la com as cores mais bonitas que possas imaginar. 
Mas, deixa-me voltar para junto de ti. Vês essa mulher que faz a travessia, com asas de sonho e despida de mundo? 
Ela foi o início, ela foi a chave que rodou na fechadura da porta, encerrada há muitos anos atrás. Para lá da porta estavam guardados os meus sonhos.
Sonhos postecipados, mas não esquecidos. 
No dia em que ela levantou voo, descobri que a realidade que estava a viver, me estava a matar. Parei no tempo, esbarrei de frente com a minha sombra, mergulhei no mais profundo do meu lado negro. Não encontrei na historia desta minha vida, nada que dissesse que merecia fazer o que só me dava retorno de tristeza.
Lembro-me de um dia um cigano velho me ter olhado fundo nos olhos e com imenso carinho ter perguntado.."porque é que cortas as tuas asas". E comecei a deixa-las crescer, devagar, ao mesmo tempo que os meus pés avançavam passo a passo e as minhas costas se endireitavam.
Chamem-lhe fraqueza, chamem-lhe loucura, virei as costas, sem justificações, sem desculpas, cortei os fios que me ligavam ao passado e nasci noutro Universo.
Sabes, é difícil não tremer depois de ter gatinhado durante tantos anos. A cada passo em frente sinto mais firmeza. 
Não vou dizer-te que é facil. Quando penso que o meu poder pessoal está maior, há um qualquer acontecimento que vem mostrar a fragilidade que ainda me envolve. 
É a minha batalha e dia a dia, repito, qual ladainha, qual reza á Deusa,...vou conseguir construir a minha realidade, aquela que eu mereço e que quero viver. 
Perguntas em que parte do bosque me encontro, abri-te as portas da caverna onde me recolho, qual ventre da mãe.
Diz-me qual o nome do estágio se o conheces, minha amiga.




terça-feira, 30 de outubro de 2012







O meu cérebro adora impulsos que o rotinem. Já se rotinou para  olhar à volta nos meus passeios matinais.

....continuo observando, tentando desvendar os seres que se ocultam por baixo de cada mascara. 
Duas mulheres, já quase inseridas na nova rotina matinal, ainda não largaram a roupa de todos os dias mas, os pés, calçados de ténis já reflectem alguma mudança. E lá vão, marchando, bolsa a tiracolo, conversando. 
Mais quatro mulheres que aderiram à marcha. Falam muito alto, sentem dificuldade em ouvir-se e num crescendo falam a gritar. Diz uma aos gritos...eu fui obrigada a casar-me, senão a minha irmã não se podia casar.... (??). E lá vão gritando as suas experiências que são sempre as piores, as que mais doem...as mais gritáveis. 
Seguem ao seu ritmo, bolsas a tiracolo e marchando.
Ah! este homem vem encoberto. Ele está a andar, há já três voltas que me cruzo com ele  mas, não está vestido para fazer exercício. Veste camisa, calça vincada e sapatos de pele. Não quer que se saiba que aderiu à marcha. E, lá vai, marchando, bolsa presa ao pulso, escondida na mão. 
Mais um casal de idosos, ele trôpego, ela  segurando-lhe o braço, e garantindo-lhe a continuidade  do apoio de toda uma vida. Devagar, muito devagar, mala a tiracolo e o peso do companheiro no outro lado do corpo. 
Uma jovem, marcha depressa, faz aquecimento, começa a correr e lá vai. Equipada a rigor mas não leva bolsa a tiracolo. 
Um grupo de homens e mulheres, idosos de camisola branca, igual, preparam-se para fazer exercício em conjunto. Bolsas ao pescoço ou a tiracolo. 
Mais uma idosa, marchando lentamente. Não leva a bolsa a tiracolo, leva um saquinho de papel, que segura como se dentro dele fosse toda a sua vida.

Só então percebi. Aquelas bolsas são eles. São os cartões com os números que os identificam perante esta sociedade de números. 
Não vá acontecer que morram na marcha e ninguém conheça os seus números. Não fizeram nada na vida a não ser, serem um dente, de uma qualquer roda dentada, nas rodas do sistema. 
Sentem-se anónimos, sentem-se números. Tantas histórias escondidas por trás daqueles números. 
Aquelas bolsas, são  espadas embainhadas para defender as suas identidades numéricas.  

Muitos se conhecem, as historias de vida devem ter-se cruzado. Ninguém morre incógnito naquela marcha...será que pensam, que os números atestam a sua legalidade e como tal o direito a morrer..



Faz-me bem andar, logo cedo, sentir a humidade das árvores, o cheiro da relva, as sombras que aguardam a chegada do sol. Aprendi a conhecer o ar que sai de mim, o ar que entra em mim. A força desesperada com que o sorvia de início seguindo-lhe o percurso até à exaustão, até o sentir  a arder e depois soltá-lo feito cavalo louco a quem tivessem querido colocar um cabresto.
Os meus olhos,em geral no vazio, voltam de tempos a tempos só para olhar o verde das folhas ou as rugas dos troncos.
Pouco a pouco começo a estabiliza-los à altura do nariz e a olhar o que se passa à minha volta. Gente, muita gente como eu, que busca algo, ou que vem tentar encontrar-se, ou provar a si próprio que se consegue andar é porque ainda está vivo.
Quase sem querer, e é sempre assim, acordo o meu analizador adormecido e começo a olhar com olhos diferentes.

Hoje, à minha frente, um casal, presumo que para o seu passeio matinal, cumpria a prescrição médica. Ele, calças inflexivelmente azuis, hirtas por quatro vincos saídos do imaginário de uma "fada do lar", camisa branca com riscas azuis, milimetricamente esticadas para dentro das calças, quiçá das cuecas. Ao vê-lo assim, qualquer um, o acharia  pronto para defrontar mais um dia de trabalho, algures dentro do sistema, não fora uma discreta e ridiculamente pequena mochilinha, preta, às costas, para mostrar que era a hora do exercício. Ah! os pés. Magnificamente calçados com uns discretos ténis de marca, não azuis, mas castanhos, que o levavam naquela marcha matinal militar. O braço direito dobrado pelo cotovelo cumpria o dever marital de servir de apoio à mulher ao seu lado.
Mais cansada, arrastava os pés, com o peso de muitas camisas azuis, muitos vincos e filhos que certamente já teriam voado do ninho, levando com eles as alegrias fugazes e compensatórias que só uma mãe consegue encontrar. Mas o que mais me doeu foi a mulher que ia presa naquele meio de corpo. Metida numa cinta tão forte que deixava sem som os gritos de ser mulher. Um espartiilho comprado para abafar o grito de Ser e que pouco a pouco foi deformando o ser Mulher. Mutilação propositada ou sugerida por um sistema que não quer ouvir gritos. Quisera falar mais desse ser Mulher, mas não encontro palavras, de tão esbatida, quase volátil, não fora o peso de densas energias que a mantinham atraída para o chão de asfalto, em busca do coração da mãe Terra e da seiva que a mantinha em andamento.