Faz-me bem andar, logo cedo, sentir a humidade das árvores, o cheiro da relva, as sombras que aguardam a chegada do sol. Aprendi a conhecer o ar que sai de mim, o ar que entra em mim. A força desesperada com que o sorvia de início seguindo-lhe o percurso até à exaustão, até o sentir a arder e depois soltá-lo feito cavalo louco a quem tivessem querido colocar um cabresto.
Os meus olhos,em geral no vazio, voltam de tempos a tempos só para olhar o verde das folhas ou as rugas dos troncos.
Pouco a pouco começo a estabiliza-los à altura do nariz e a olhar o que se passa à minha volta. Gente, muita gente como eu, que busca algo, ou que vem tentar encontrar-se, ou provar a si próprio que se consegue andar é porque ainda está vivo.
Quase sem querer, e é sempre assim, acordo o meu analizador adormecido e começo a olhar com olhos diferentes.
Hoje, à minha frente, um casal, presumo que para o seu passeio matinal, cumpria a prescrição médica. Ele, calças inflexivelmente azuis, hirtas por quatro vincos saídos do imaginário de uma "fada do lar", camisa branca com riscas azuis, milimetricamente esticadas para dentro das calças, quiçá das cuecas. Ao vê-lo assim, qualquer um, o acharia pronto para defrontar mais um dia de trabalho, algures dentro do sistema, não fora uma discreta e ridiculamente pequena mochilinha, preta, às costas, para mostrar que era a hora do exercício. Ah! os pés. Magnificamente calçados com uns discretos ténis de marca, não azuis, mas castanhos, que o levavam naquela marcha matinal militar. O braço direito dobrado pelo cotovelo cumpria o dever marital de servir de apoio à mulher ao seu lado.
Mais cansada, arrastava os pés, com o peso de muitas camisas azuis, muitos vincos e filhos que certamente já teriam voado do ninho, levando com eles as alegrias fugazes e compensatórias que só uma mãe consegue encontrar. Mas o que mais me doeu foi a mulher que ia presa naquele meio de corpo. Metida numa cinta tão forte que deixava sem som os gritos de ser mulher. Um espartiilho comprado para abafar o grito de Ser e que pouco a pouco foi deformando o ser Mulher. Mutilação propositada ou sugerida por um sistema que não quer ouvir gritos. Quisera falar mais desse ser Mulher, mas não encontro palavras, de tão esbatida, quase volátil, não fora o peso de densas energias que a mantinham atraída para o chão de asfalto, em busca do coração da mãe Terra e da seiva que a mantinha em andamento.

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